Prof. Valois

Teacher

Em 1964 o ensino da Língua Francesa havia sido substituído, no curso ginasial, pelo da Língua Inglesa.
No dia da primeira aula de inglês, do ano letivo, fomos surpreendidos pela entrada triunfal, na sala da 3ª Série A, de um professor, espalhafatoso, um senhor de meia idade, cabelos pretos, acima do peso, elétrico, muito falante e apreciador de Coca-Cola e tudo que lembrava a terra do Tio Sam. 
Era o Prof. Valois Scortecci e seu famoso gravador de rolo transportado em um carrinho de madeira clara e envernizada, com rodízios, que produziam um grande barulho em contado com os ladrilhos retangulares cerâmicos produzidos na cor vermelha.
O que mais me impressiona nele era a sua energia. Não parava de falar e de andar de um lado para outro na classe.
Era recomendado que comprássemos um livro que não trazia uma única palavra na nossa língua pátria. Era tudo em Inglês. Todas as aulas eram gravadas na Língua Inglesa e correspondiam às lições escritas no livro.
O seu método de ensino era revolucionário. 
A sua pronúncia era maravilhosa. Para não aprender era necessário fazer uma força danada.
O seu jeitão aproximava em muito os alunos dele. Alguns alunos acredito que não entendiam o seu jeito liberal e extrapolavam nesse relacionamento. Era comum, antes de sua entrada na classe, entupirem as tomadas de energia elétrica com palitos de fósforo para que ele não conseguisse ligar o seu gravador. Uma pena, era pura perda de tempo.
Certa vez vi o Ricardo, um aluno com pinta de artista, o desafiando sobre o rendimento do seu carro. O Prof. Valois dirigia um Ford 1948, modelo Custon, motor V-8, automático, na cor azul claro, com faixas branca nos pneus e um farolete na coluna de veículo, do lado do motorista. Era do mesmo modelo que a polícia norte-americana utilizava. O professor, para mostrar a força do seu motor levou os alunos para frente do Mario Vieira Marcondes, no intervalo das aulas, e realizou o teste. O seu carro saiu cantando pneus. Era algo surpreendente para um carro automático.
A sua esposa, a Profª Lidia Scannavino Scortecci era a sua antítese. Séria, de movimentos e passos lentos, amável, mas muito comedida. Talvez por isso formavam um par harmonioso. Era professora de Geografia. Tal qual seu marido era uma excelente mestra.
Havíamos chegado no dia 13 de setembro de 1967, data que nunca mais esqueci. Já havia terminado o último período de aulas quando fui surpreendido com uma notícia arrasadora. O Djalma, meu amigo, me comunicou que o Prof. Valois havia acabado de falecer em um acidente na Rodovia Brigadeiro Faria Lima, no Município de Taquaral.
Fomos para casa e em seguida passei na residência do Djalma. Havia solicitado ao seu pai Sr. Dominguinhos a caminhonete Chevrolet, cabine dupla, um lindo veículo.
Rumamos para o local do acidente, com emoção contida e mal conversamos. Não demorou muito chegamos ao local do sinistro.
Lá estava o seu carro no acostamento com as marcas típicas de um forte abalroamento. Do outro lado da pista no sentido a Barretos estava estacionado, no acostamento, um caminhão baú, da marca Mercedes-Benz, azul, da fabricante de brinquedos Estrela, aparentemente sem estragos relevantes.
A emoção era forte e o meu choro era contido, pois em Barretos homem não chorava.
Nada mais havia o que fazer lá. Voltamos para Barretos tristes e em silêncio, um silêncio que reverenciava o nosso grande mestre perdido.
Luiz Wagner Outeiro Hernandes.
19/07/2016.
Prof. Valois.


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